Maternidade

A maternidade, o padecimento e o paraíso

Texto publicado originalmente no blog A caminho de casa, em março de 2015.

 

Os livros permanecem na estante, intocados. Alguns ainda estão empilhados na mesma ordem em que se encontravam no fatídico 9 de novembro: o livro mais recente do poeta Érico Nogueira, “Poesia Bovina”, a “História de Jesus para as criancinhas lerem”, de Gomes Leal, o volume único da poesia de Camões, o volume único da poesia de João Cabral de Melo Neto, a Bíblia de Jerusalém. Junto deles, meus cadernos de anotações, onde desde então nada mais foi anotado. Desde o domingo em que minha filha nasceu, há quatro meses.

No início (eu sei que continuo no início, mas toda fase difícil se subdivide em múltiplas quase eternidades) — no início, isso foi duro: deixar de lado tudo o que até então eu tinha por vida; ver minha identidade empoeirando, dia após dia, na estante. Tentei de diversos modos trazer fragmentos da vida anterior para essa vida nova. Os muitos momentos solitários e convidativamente silenciosos durante as mamadas precisavam ser aproveitados. Tentei dar de mamar e ler coisas edificantes pelo celular (livros são pesados demais para segurar com uma só mão), dar de mamar e assistir a algum filme, dar de mamar e ouvir o Curso Online de Filosofia.

O resultado? Frustração em dose dupla, é claro. Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Fui, enfim, forçada a reconhecer o óbvio: o filho é uma realidade que toma conta da gente. O filho recém-nascido, então, não é apenas uma responsabilidade muito trabalhosa, ele é praticamente uma extensão do corpo da mãe. E no entanto seria fácil se fosse uma mera relação entre corpos, um laço fisiológico desses que a tecnologia moderna já consegue em grande medida substituir. A relação mãe-bebê é a relação corpórea por excelência — “corpórea” no sentido mais mamífero e animalesco do termo; ela se estabelece via pele, calor, cheiros, fluidos. Mas tudo isso é apenas o meio para um fim que transcende os corpos: a elaboração de uma subjetividade, a nutrição de uma alma — para ficar apenas nos efeitos sobre o bebê.

É assim que, aos poucos, a mãe de primeira viagem vai percebendo que aquela bolinha de carne tão aparentemente alheia a tudo, interessada apenas em sua subsistência imediata, possui uma particularidade que é na verdade uma arma fatal: um par de olhinhos tiranos. Esses olhinhos, quase sempre fechados na presença de visitas, vão se encravar nas entranhas da mãe desde o primeiro momento em que ela fica a sós com eles. E dali eles não saem. É por meio deles que a mãe se dá conta de que pôs no mundo um indivíduo humano, e isso assusta. Muito. Ela passa então a responder cegamente aos comandos do par de olhinhos; prover o seu bem estar passa a ser a prioridade do universo dela, que afinal de contas é a responsável, é a dona, é parte integrante — não é muito claro para ela o que ela é, mas é certamente algo muito próximo, de preferência inseparável desses olhinhos minúsculos, que não por acaso oferecem ao seu toque a pele mais macia do mundo.

Não é exagero dizer que o bebê, em seus primeiros meses de vida, é um pequeno tirano. Ele demanda para si toda a energia, física e emocional, da mãe. Esta, por sua vez, ama servi-lo. Ama e, no entanto, sofre. Quando é a primeira vez que a mulher se depara com a gravidade do amor materno, há uma verdadeira ruptura com toda a sua normalidade anterior e, como sob a lei da inércia, ela em diversos momentos quer resistir à mudança.

A verdade é que nem tudo nesse novíssimo universo a dois é ternura o tempo todo. A batalha da recém-maternidade tem dois grandes inimigos: a exaustão e a nostalgia. Sabe aqueles relatos atemorizantes sobre o caos que é o primeiro mês do bebê? Tudo verdade. Dar de mamar é uma das experiências mais prazerosas da vida, mas cansa. Saco vazio não para em pé, nem pessoa que não dorme. E é aí que entra a nostalgia: tudo antes estava tão sob controle, a vida cabia na palma da mão. De repente você não sabe mais por onde começar a reconstruir a rotina, porque referenciais básicos como dia e noite ficam suspensos. Os dois olhinhos te sugam — literalmente. Você quer fazer tudo por eles, mas se sente fraca e acha que não vai dar conta. Quanto mais eles pedem, mais você dá e mesmo assim nunca parece suficiente, é sempre a sensação de corda bamba, de que uma hora qualquer coisa vai explodir dentro ou fora de você. Às vezes explode mesmo e aí temos o que se costuma chamar de depressão pós-parto. Tudo porque a mãe, nesses primeiros momentos, se vê esmagada por pressões em vários sentidos: ela percebe o tamanho de sua responsabilidade e quer estar à altura desse amor estranho, meio opressor, meio impositivo, doído de tão grande, e por isso encara como uma derrota o fato de se sentir tão cansada e nem sempre emanar a serenidade das mães dos comerciais de óleo para bebê; e, por outro lado, seu esforço para doar-se integralmente às exigências desse novo amor faz com que ela fique um tanto alheia ao resto do mundo — à casa, ao trabalho, ao marido —, o que não tarda a recair sobre ela como uma bomba de culpa por “não fazer nada”, mesmo que ela se ocupe o dia inteiro de nutrir e proteger o ser que gerou dentro de si, tentando, nos intervalos, se reencontrar dentro de sua própria vida.

Em vários momentos, durante esses primeiros meses, o peso e cansaço eram tantos que me peguei perguntando “por que as pessoas ainda fazem isso?” É uma pergunta absurda e um tanto retórica, pois eu nunca deixei de saber a resposta. O que me intrigava, na verdade, era justamente isso: quanto maior a dificuldade, maior o amor; por mais que tudo ao redor desabe, permanece sempre o núcleo duro do amor. Mas não necessariamente o amor-ternura. Muitas vezes o amor pelo filho parece uma forma de escravidão, um caminho sem volta: não sei para onde estamos indo, mas te amo! De alguma forma, você sabe que não poderia estar em nenhum outro lugar, fazendo nenhuma outra coisa, por mais que cenas da vida anterior retornem à sua memória como uma campina verdejante. Aquele serzinho pequeno está ali, respirando. Você se pega acordando várias vezes à noite para ter certeza de que ele ainda respira, e tem vontade de gritar “Pare de fazer isso comigo!”, mas no fim das contas tudo o que você quer é que ele ainda respire, que ele viva mais do que você e nunca se machuque. É a coisa mais maluca do mundo.

E não poderia ser diferente, afinal, “ser mãe é padecer no paraíso”. Tenho pensado muito nessa frase. Li em algum lugar que ela teria sido dita por Jesus durante a Via Crucis, enquanto a Virgem Maria limpava o rosto ensanguentado de seu filho que marchava para a morte. Se qualquer ser humano são pode perceber a força dessa imagem, é preciso ser mãe para ter uma noção exata do que ela significa. O “sim” de Maria ganha um peso muito maior quando consideramos que ali, na Anunciação, ela não aceitou apenas fazer do Filho de Deus o seu filho, mas perdê-lo, e para uma morte terrível. É como se todos os pequenos incômodos, dificuldades e sofrimentos maternos coubessem dentro desse exemplo de um sofrimento incalculável. Mais ainda, se refletirmos sobre o mistério da Encarnação, nos damos conta de que o amor de uma mulher — de uma mãe — gerou a porta de entrada dos homens no Paraíso. O amor materno — Deus parece querer nos dizer — é a antecâmara do Amor.

É claro que não pode ser fácil. Será sempre cheio de provações o caminho de quem tem o privilégio de sentir o maior amor humanamente possível, aquele que só não se sobrepõe ao amor de Deus porque o fortalece, antecipando-o. Não tenho dúvidas de que a vida antes desse amor era mais leve, mas também era menos vida. Ser mãe é dar muito de si, e sofrer por isso às vezes, mas ter certeza de que incômodo pessoal nenhum se compara ao medo de que o mundo machuque nosso bebezinho. Nada, nada pode ser pior do que isso.

Meus livros e minha antiga rotina literária andam um tanto esquecidos, mas sei que eventualmente voltarão a ocupar seu devido espaço. O que não voltará mais é o vazio meio sem explicação, as madrugadas silenciosas e sem sentido, ou barulhentas, movimentadas e sem sentido; o que não voltará é a velha vontade de perguntar “o que estou fazendo aqui?”, ou “pra quê tudo isso?” Hoje, com todos os desafios que sei que me esperam e que só terei de enfrentar porque me joguei na aventura da maternidade, entendo finalmente o que é viver uma vida com sentido. Sei que a vocação familiar não é a única possível, mas no meu caso, e certamente no da maioria das pessoas, ela é a solução tão óbvia quanto subestimada, pelo simples motivo de que nos salva de nós mesmos.

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