Maternidade

Relato de parto: um parto, duas dores

Texto originalmente publicado no Facebook, em novembro de 2014.

 

Como tantas mulheres, sonhei durante toda a gravidez com um parto normal, mas acabei passando por uma cesariana. Só que no meu caso houve uma particularidade: passei por todo o trabalho de parto e entrei na faca quando meu bebê já estava quase escapulindo da barriga. A história é a seguinte:

A Maria estava sentada. Quem entende o básico do idioma “gravidês” sabe que isso quase sempre significa parto cesáreo, pois o parto de bebês pélvicos (isto é, sentados) é considerado de risco. Sempre tive esperança de que ela ainda virasse, mas à medida que as semanas avançavam a triste probabilidade da cesárea ficava mais concreta. Conversei com minha obstetra e concordamos que ao menos esperaríamos o início do meu trabalho de parto, ao invés de agendar maquinalmente uma cesárea. Espero que ao fim deste relato fique claro o motivo da minha insistência nesse ponto.

Pois bem: 9 de novembro de 2014, 38 semanas e 1 dia de gestação. Teoricamente, a Maria ainda podia levar duas ou mesmo três semanas para querer vir ao mundo. Eu já vinha tendo algumas contrações de treinamento e cólicas doloridas, mas nada que indicasse um parto iminente. Aquele era, portanto, um domingo como qualquer outro. Vitor e eu fomos à Missa pela manhã, depois almoçamos uma deliciosa (e apimentada!) feijoada na casa da minha sogra. À tarde, fomos visitar nossos compadres Rafael Falcón e Day Teixeira , e entre um café e outro eu esvaziei aproximadamente meio pote de sorvete de creme com amendoim e chocolate (santo remédio para a azia chata que dá no fim da gravidez – é sério). Entre as oito e as nove da noite, ainda na casa de nossos compadres, estávamos diante de uma mesa de pães, frios e um bolo esquisito que o Rafael comprou. (Gravidez dá muita fome, gente!) Perto das dez, estávamos em casa e às onze eu estava na maca do centro cirúrgico prestes a ganhar minha filha.

Mas peraí: cadê o trabalho de parto?

Por mais bizarro que pareça, eu passei todo aquele domingo em trabalho de parto. Na madrugada de sábado para domingo, acordei com muita cólica, mas não era nada que já não tivesse acontecido antes. Tomei um Buscopan e voltei a dormir. Quando acordei, percebi que as supostas contrações de treinamento estavam doloridas e ritmadas: vinham a cada dez minutos, como um reloginho. Mas foi durante a Missa que me dei conta de que algo realmente diferente estava acontecendo, e senti uma felicidade indescritível. Cada fisgada na lombar indicava que meu parto estava próximo e isso – não só o fato do parto, mas a sensação de meu corpo trabalhando ativamente para prepará-lo – era uma grande alegria. Eis aqui um primeiro motivo para se valorizar o trabalho de parto: a preparação psicológica (de base fisiológica, hormonal) da mulher. Hoje eu sei que não é à toa que dizem que a ocitocina (o hormônio que comanda o parto) é o hormônio do amor. Durante aquela Missa minha vontade era abraçar todas aquelas famílias e crianças. Eu estava sentindo cólicas doloridas, mal conseguia ficar de pé, e isso significava que meu parto estava próximo, minha filha existia e meu corpo era uma fábrica de vida – com o perdão da expressão cafona.

As contrações se mantiveram ao longo do almoço e durante toda a tarde. Doíam, sim, mas era perfeitamente possível suportá-las sem fazer um escândalo. No máximo, durante alguma conversa profunda e filosófica (só que não) com o casal Falcón, eu parava no meio de uma frase para pôr as mãos nas costas e fazer cara de dor. Com o cair da noite, foram ficando mais doloridas e a intervalos menores. Ainda assim, não era uma dor que lembrasse os gritos desesperados das mulheres que estão parindo, como costumamos concebê-las. Lembro da Day tentando acalmar o Vitor (dois olhos verdes arregalados cada vez que eu parava para pôr as mãos nas costas): “Calma, Vitor, quando for o parto pra valer ela vai berrar, não ficar aí conversando”. Eu também pensava o mesmo. Quando Vitor e eu fomos para casa, as contrações já estavam vindo de oito em oito minutos e às vezes de cinco em cinco. Eu li muito sobre gravidez nos últimos meses e sabia perfeitamente que contrações doloridas de cinco em cinco minutos querem dizer trabalho de parto. Ainda assim, continuava incrédula: onde já se viu grávida em trabalho de parto comendo sorvete de amendoim e batendo papo a tarde inteira? Aquilo tinha de ser um episódio de preparação, em algum momento as contrações parariam. Liguei para minha médica, apenas comunicar meu estado e perguntar se eu poderia tomar Buscopan para conseguir dormir. (Mais tarde, no hospital, ela me diria: “Sua filha quase para sair e você querendo tomar Buscopan!”). Eu não queria ir para o hospital à noite, e sobretudo não queria ir para o hospital antes da hora, mas não teve jeito: minha médica me intimou a ir imediatamente. Pensei com tristeza: “É isso, vou ser mais uma que se interna por um alarme falso e termina numa cesárea sem trabalho de parto.” Resignada, segurei na mão de meu marido branco feito um lenço e fomos.

Jamais vou esquecer aqueles vinte minutos no carro a caminho do hospital. Digo com toda certeza: foi um dos momentos mais felizes que tive até hoje, daqueles que têm de constar no filme que conta a história de nossas vidas. Se eu tinha alguma dúvida de que estava em trabalho de parto, durante aquele percurso não tive mais. As contrações passaram a vir FORTES, e pela primeira vez em todo o dia me deu vontade de gritar, e eu gritei, mas também ria, enquanto meu marido assustado dizia “Eu não acredito que você está gritando de dor e dando risada ao mesmo tempo”, e ria também. Tive seis contrações em vinte minutos, e nos pequenos intervalos em que elas paravam eu esperava ansiosa pela próxima. “Está acontecendo!” – E naquele momento eu me sentia preparada para tudo, para todo o esforço e a dor que ainda tivessem de vir para que minha filha nascesse. Lição número dois sobre o trabalho de parto: ele transforma a dor física em uma verdadeira “cruz sem cruz”. Não é lenda, não é mandinga, não é acaso: são hormônios, mesmo.

Cheguei ao hospital com 8 centímetros de dilatação. Para quem não fala “gravidês”, isso quer dizer que mais um pouco e os pezinhos da minha filha sairiam para fora. Minha médica me deu uma bronca, pois o bebê já estava muito baixo e talvez não fosse mais possível fazer a cesárea. Confesso que não considerei isso uma má notícia… Mas nos fim das contas foi possível, sim, e fui encaminhada ao centro cirúrgico para uma cesariana de emergência.

Aí termina a parte bonita e vigorosa do meu parto. Mas não vou me fazer de vítima e dizer que fui submetida a qualquer coisa. Não, eu topei fazer a cesárea, pois estava ciente de que o parto pélvico, para ser realizado com segurança, requer uma técnica específica e exaustivamente praticada. Se minha médica achava melhor não fazer, então devia ser melhor mesmo. Meu objetivo ao fazer esse relato não é denunciar qualquer “violência obstétrica” que eu tenha sofrido (apesar de que sofri, sim, mas da parte do hospital e não da obstetra, que é uma das pessoas mais generosas e humanas que já tive a sorte de conhecer). Meu objetivo é me dirigir às mulheres que compram o discurso de que “não faz mais sentido passar horas e horas sofrendo com dor, quando a medicina evoluiu e já dispomos de uma cirurgia rápida e prática como a cesariana.”

Bom, eu passei aproximadamente 14 horas em trabalho de parto, durante as quais estive com minha família e meus melhores amigos, comi feito um leão e compartilhei momentos de intensa intimidade e alegria com meu marido. Segundo minha própria médica, se o bebê estivesse encaixado, a fase expulsiva não teria levado mais de 15 minutos e alguns empurrões, provavelmente sem anestesia. É claro que doeu, sobretudo no final, e expulsar o bebê teria doído mais ainda, mas acreditem quando digo que não doeu nada! Pelo contrário, terei sempre um carinho imenso por aquelas 14 horas. Já o que veio depois, a partir do momento em que fui levada ao centro cirúrgico… Nem preciso entrar em detalhes. Basta dizer que quando minha bebê nasceu eu só a vi de longe e só pude segurá-la nos braços no dia seguinte, e isso porque fiz o esforço de ir me arrastando, recém-operada, até o berçário. Também não preciso descrever em detalhes como a anestesia fez cair minha pressão e fiquei passando mal ao longo de toda a cirurgia, semiconsciente, e depois fiquei por quase três horas (TRÊS HORAS!) sozinha numa sala de recuperação, tremendo pelo efeito da anestesia (“É normal, daqui a pouco passa”, diziam sem sequer olhar na minha cara as enfermeiras), sem saber por onde andavam minha filha, meu marido, minha mãe. O pior é que o efeito da anestesia foi passando mesmo, e com isso comecei a sentir a dor dos cortes, e nada de me levarem para o quarto ou me darem um analgésico. Precisei chorar e implorar às enfermeiras que notassem minha existência e me ajudassem. Das três a que implorei, apenas uma me ajudou, as outras continuaram limpando a sala.

Sei que minha experiência, tanto com o trabalho de parto quanto com a cesárea, pode ter sido um caso isolado, mas foi assim que aconteceu. E para mim a conclusão a partir de tudo isso é óbvia: nas cenas descritas acima, há dois tipos de dor: uma natural, produzida pelo próprio corpo com um objetivo determinado, a qual nosso organismo se prepara para receber, de modo que, quando ela vem, estamos física e mentalmente preparados para suportá-la; e outra artificial, vinda de fora sem qualquer aviso prévio, o que faz com que nosso corpo se defenda contra ela, produzindo, por exemplo, infecções e febres, e daí a montanha de remédios do pós-operatório, para tentar reequilibrar o organismo.

Vai fazer sete dias que passei pela cesariana e ainda não consigo andar direito. É difícil amamentar minha filha, pois preciso apoiá-la sobre a barriga cortada. Digo novamente: não quero demonizar de modo absoluto o parto cirúrgico, que evidentemente salva vidas e é, em seu devido lugar, um avanço, mas o discurso de que ele é prático e indolor é FALSO. Apenas isso. Comparar favoravelmente a dor do pós-operatório à do trabalho de parto é um grandessíssimo absurdo!

Dou graças a Deus por ter, quase que por acaso, levado meu trabalho de parto às últimas consequências, pois não tenho dúvidas de que isso foi fundamental para me preparar para receber meu bebê, além de ser a causa por trás do colostro vazando do meu peito logo após o parto, para surpresa das enfermeiras. Já que é preciso ver o lado bom de tudo, faço agora meu máximo para aprender também com a experiência da cesariana, mas espero do fundo do coração nunca mais precisar repeti-la.

No futuro, quando pensar no parto da Maria, a imagem que virá à minha memória será a daqueles vinte minutos no carro com o Vitor, a caminho de nossa nova vida em família, rindo e gritando de dor ao mesmo tempo, como em todas as situações que nos modificam para sempre.

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