Homeschooling · Síndrome de Down

Educação x Inclusão

Não tem como começar a ver esse vídeo e não se emocionar. Pedro, um menino com síndrome de Down, passeia pelos corredores da escola com um amiguinho “normal”, sem qualquer barreira entre os dois, que alegremente conversam. Você logo pensa: “Que lindo! Como as coisas evoluíram; hoje uma pessoa com deficiência pode levar uma vida digna!”

Aí o vídeo continua e nada é tão lindo assim. Beira o revoltante, na verdade. Isso que se chama de “inclusão”, e que é a grande causa em prol das pessoas com deficiência hoje, não passa de mais um brasileiríssimo truque “pra inglês ver”. Logo no início a coordenadora de inclusão da escola diz com orgulho que nas outras escolas as crianças repetem de ano quando não conseguem acompanhar a turma (oh, que maldade!), mas ali, naquela escola inclusiva, o critério é a idade: uma criança Down tem que ficar com outras crianças da mesma idade, acompanhando ou não a turma.

É claro que entendo a importância de uma criança, Down ou não, conviver com outras de idade semelhante. E concordo também que não é nada bom para um adolescente de 15 anos estudar com crianças de 10. É uma obviedade. Mas disso não se segue que o modelo de “escola inclusiva” apresentado no vídeo seja o melhor.

O menino Pedro está matriculado na sétima série e estuda com crianças sem deficiência, de idade semelhante à dele. Mas ele estuda por um material adaptado e com a ajuda de monitores (um dos quais, fofíssimo, é o amiguinho que aparece no início do vídeo, e é a única criança verdadeiramente beneficiada nisso tudo). Pedro está na sétima série, mas ainda precisa de ajuda para fazer contas de adição. Ao que tudo indica, para o “pensamento inclusivo” vigente, é mais importante a tal da socialização do que o aprendizado de fato.

O que os entusiastas desse tipo de iniciativa parecem ignorar é que pessoas com síndrome de Down podem aprender muito. Eles pensam e absorvem o mundo de forma diversa da nossa, o que significa apenas que precisam de uma pedagogia diferente. Mas aprendem. Essa obsessão por enquadrá-los na escola regular me parece ser mais um modo de nós, os “normais”, os neutralizarmos e não precisarmos lidar diretamente com sua peculiaridade. Ensinar uma criança com Down é algo extremamente diverso de simplificar o assunto com cartilhas infantilizadas!

Eu não faço nenhuma (atenção: NENHUMA) questão de que minha filha estude em uma escola regular, onde ela será o mascote da turma, receberá tapinhas nas costas e ficará num canto cobrindo figuras pontilhadas enquanto os demais têm aula de verdade. Isso não é inclusão — é descaso. É tomar o caminho mais fácil, em vez de enfrentar a pauleira que é desvendar o universo de indivíduos cognitivamente diferentes de nós. Eu estou começando a desvendar esse universo e espero, com o passar dos anos, me tornar uma educadora cada vez mais apta a fazer a mediação entre o mundo e minha filha. Mas não se preocupem, ela não ficará restrita a mim; buscaremos toda e qualquer terapia ou atividade que possa beneficiá-la, onde ela possa receber atenção individual e DE FATO APRENDER.

Eu gosto de livros, mas se ela não demonstrar aptidão intelectual terá toda a liberdade para descobrir quais são seus interesses. Meu objetivo como mãe é levá-la a ser sujeito da própria vida, fazer suas próprias escolhas e se situar nesse mundo. Isso vale, aliás, para todos os filhos que eu vier a ter, com ou sem Down. Eu sei que é tranquilizador colocar uma criança na escola e sair de lá com a certeza de que ela está bem assistida, que está “onde todas as crianças estão”. Especialmente quando se tem uma criança com deficiência, é tranquilizador vestir nela um uniforme e comprar a ilusão da normalidade. Mas os pais que vão por esse caminho provavelmente não se deram conta de que estão comprando tranquilidade à custa do desenvolvimento, da individualidade, da dignidade de seus filhos, que, indo com a boiada, ficarão muito, muito longe de atingir seu pleno potencial.

Pessoas com síndrome de Down não são “anjos, sempre alegres, eternas crianças”. Se tratadas com a seriedade que merecem, são simplesmente pessoas, que no entanto demandam um intenso acompanhamento individual para se desenvolver. A palavra é essa: individual. Ir com a boiada, repito, é o modo mais fácil para nós, mas é uma falha irreparável se o objetivo for dar às nossas crianças uma verdadeira educação.

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