Homeschooling · Síndrome de Down

O engodo universitário

Ouvimos o tempo todo: “para as pessoas com síndrome de Down chegarem às universidades…”, ou “mesmo tendo síndrome de Down, ele entrou na universidade”, como se isso ─ cursar uma universidade ─ fosse o suprassumo do desenvolvimento cognitivo e social de uma pessoa.

Confesso que invejo quem tem essa convicção. É muito mais fácil seguir adiante quando se tem um objetivo claro. Deve ser reconfortante ir dormir todas as noites sabendo onde se quer chegar e o quanto se está longe ou perto de alcançar esse propósito.

Mas, não: não sonho com o dia em que minha filha será uma jovem universitária como-todos-os-jovens-normais-e-promissores-do-país. E não porque duvide de seu potencial para tanto; antes, porque já estive lá e sei do que se trata a tal vida universitária brasileira e, sinceramente, não desejo aquilo para nenhum filho meu, com ou sem deficiência.

Excetuadas as áreas mais técnicas, como medicina e engenharia, não vejo qualquer justificativa para um jovem gastar seu tempo, seu talento e sua fome de vida com o que se passa dentro desses antros de picaretagem que são as faculdades do nosso país. A não ser, é claro, que o próprio jovem busque apenas a fachada do “ensino superior”, visando a uma colocação no mercado de trabalho, o que é uma realidade deprimente, mas compreensível nas circunstâncias da sociedade atual.

Queremos que nossos filhos tenham uma formação de alto nível em suas áreas de interesse? Acreditamos que a deficiência intelectual não os impede de produzir conhecimento e prestar serviços úteis à sociedade? Sabemos, pela nossa convivência diária com eles, o quanto são capazes de aprender? Ora, será que o ingresso na universidade é *necessariamente* o melhor e mais desejável caminho para as pessoas com deficiência intelectual alcançarem sua tão sonhada independência?

Sem exagero: durante os 10 anos (graduação e mestrado) em que frequentei a faculdade de Letras mais conceituada do país, o que mais vi foram pessoas normais adquirirem problemas mentais ─ psicológicos, psiquiátricos, comportamentais, emocionais. É uma situação que nos deixa entre a cruz e a espada: nas faculdades ditas boas, a atividade intelectual toma rumos perversos, induzindo nas pessoas primeiro o gosto, depois o vício pela elucubração vazia, pelo pensar que se orgulha de não chegar a lugar algum; e, na face oposta da moeda, temos as “faculdades portinha”, que já nem se dão ao trabalho de aparentar interesse por conhecer qualquer coisa.

Resumindo: as universidades (no nosso país, ao menos) estão muito longe de ser a “cozinha do pensamento” que deveriam ser. A picaretagem e o engodo rolam soltos. A mediocridade é a regra, os talentos genuínos sofrem de asfixia e inanição.

Por que, mesmo, temos esse como o objetivo maior da vida dos nossos filhos? Pessoas que chegam à idade adulta tendo de vencer os mais diversos obstáculos, o maior dos quais é a própria morte, que os ronda com mais frequência do que ao restante da população – essas pessoas que aprendemos a respeitar por sua força e pela sinceridade com que encaram o mundo, será que não merecem que esperemos mais delas do que o ingresso facilitado numa faculdade que ensina apenas para inglês ver?

Sei que os pais fazem suas escolhas pensando no melhor para os seus filhos, e espero que ninguém se ofenda com esse texto.

Estou dizendo apenas que não dou um tostão furado pelo sistema educacional que aí está. E acho que você também deveria ter os dois pés bem atrás, antes de apostar suas melhores fichas no engodo universitário. O mundo é enorme e existem outros caminhos.

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