O Corpo Nulo

Prefácio: Contemporaneidade d’O Corpo Nulo’

Por Wladimir Saldanha

 

Escrevendo sobre Tasso da Silveira em 1940, um jovem Adonias Filho afirmava sem pejos: sublimando o que no corpo é repelente e trágico, o homem se aproxima do estado de morte, de um momento de arte”[1]. Gostaria de começar com essa evocação, ou provocação, tanto pelo que nos diz de seu à-vontade com os temas de uma “poesia eterna” quanto pelo que supõe de impasses entre lira e antilira, de insuspeitas ressonâncias quando hoje Lorena Miranda Cutlak nos chega com O corpo nulo.

Veja o leitor que a primeira seção deste livro, Corte & Costura, é na verdade uma cabralina “escola de facas”, apesar do nome caroável. Porém, se em Cabral os sensorialismos da “navalha do vento” ou do “gume da cana” balizam os extremos em que se movimenta sua grande poesia, na recém-chegada as agulhas e os alfinetes de Corte & Costura são os pontos de partida que o sujeito lírico estabelece para uma iniciada amplitude, para “deixar que o corpo perca suas vantagens”, como se lê ao final da segunda seção, Acid Trippin’, no poema Corolário. Em verdade já líamos antes, numa peça homônima ao livro: “Motivos fui cedo perdendo/ para chacoalhar essa flâmula/ mortalíssima do sensível”. E por tudo se vê que a anulação desse corpo fora atingida, embora em direção oposta à de certa aranha tecelã.

Há também às vezes uma delicadeza, um semitom ceciliano. O octossílabo, metro da predileção de L. M. C., bebe de várias fontes – de Cabral e Cecília, de Cunha Melo. Se alguns parecem vir de “oficina irritada”, pelos ditongos recorrentes em possessivos, é delicadíssimo o encadeamento de alexandrinos do poema Penumbra, ou dos decassílabos de Primavera, aqueles e estes combinados com versos finais de seis sílabas a cada estrofe, e todos soando fluentes como versos livres. Não há cavilhas, não há enxertos para atingir os tamanhos desejados nem elisões forçadas; os acentos, nos quebrados finais, vão da segunda à quarta como numa conversa.

Confesso que, numa primeira leitura, deslembrado desse tipo entrechat de bela tradição (p. ex. Gonçalves Dias, em Desengano, citado por Said Ali), pensei em verso livre. É que uma pequena aula de expressão poética vai latente aí: já não a do versilibrismo que aprendeu com a métrica, mas a dos metros que voltam do verso livre[2], ou mesmo da prosa – pois a autora é também uma estudiosa de Dostoiévski. É possível rastrear no seu livro aquela “aliança com a prosa” que Alfonso Berardinelli aponta em parte da lírica moderna, aproveitando uma lição de Baudelaire[3]. Haverá quem não veja – mas há muitos cegos nesta contemporaneidade d’O corpo nulo, alguns por opção; por certo L. M. C. não o ignora, e com isso tempera seu próprio olhar.

Digamos, contudo, que sua lição é a do ritmo, a acompanhá-la nos paroxismos, quando o corpo nulo vai “mais além de suas cicatrizes”; depois, entre objeto e persona lírica, quando ele estranha a si mesmo, experienciando o Pânico – essa nova histeria do Século XXI − e ainda quando dorme, sussurra, entrega-se amoroso ao seu “touro louríssimo”, é sempre um sentido rítmico que guia o verso, a “dor pulsátil” de L. M. C., usando agora uma de suas belas invenções.

Ocorre de voltar ao palo seco e com ele nos dar poemas de amor, como noutro sobre o mesmo touro (valendo um sonoro olé! nas “poesias de gênero”): “Firmou compromisso com a pedra/ parasita dentro em seu peito/ e quando o trabalho o recruta/ quebra pedras sem sentimento”. Na seção final, a tauromaquia vai redundar no poema Rapto, um dos poucos entre nós a tematizar a gravidez e o parto, talvez único no país ufano da moça grávida de biquíni na areia da praia, há já dez lustros.

Só pela força desse Rapto e a pertinência daquele Pânico teríamos aqui uma voz obrigatória do chamado nosso tempo. Mas não é só. O mundo dos fármacos, nunca tão nosso, é também o seu, em morfinas, lenitivos, “dimenidrinatos” e “benzodiazepínicos”. Diremos agora, olhando o conjunto, que esta poesia se equilibra num fio tênue entre lira e antilira, entre melodia e ruído, e que ora frequenta a convenção literária em versos do Belo que ainda se quer discursivo, até explicativo (“O corpo criado é perfeito,/forma humana providencial”), ora se retrai, volta ao Feio (“como um qualquer verme”). Daí suas possíveis “flores mixas/ que ao desabrocharem se fecham”.

Ao contrário de uma sublimação que seja mero apagamento, O corpo nulo é a “ponte entre o sensível e a eternidade” (poema A ponte), conhecendo a “anatomia do seio lacerado”, os “pesares do jardim” (Consagração). Se há um estado de morte, é para contemplá-lo na posição analítica (bem cabralina, antilírica) e rememorativa (lírica por definição, conforme o bom e velho Steiger).

Ainda no estudo sobre Tasso da Silveira, Adonias Filho elogia certa poesia “em prece”, ficando a impressão, entretanto, dos exemplos que cita, que a prece sacrificava a poesia. Por essas velhas e outras novas, é belo vermos a poetisa de O corpo nulo rezar em verso (p. ex., poema Noturno na Noite de Natal), sem fulminar a abertura do signo poético; se frequenta a “poesia eterna”, é com o “olhar aguçado à tormenta” com que volta da vida (vejam em O outro absoluto, V).

Ao sublimar o que no corpo há de “repelente e trágico”, ao fazer o seu ceciliano “grito transfigurado”, L. M. C. nos chega mais cabralina, mais antilírica – e como isso resulta bem! Dói-lhe o cravo do Fédon, aquele que prende a alma ao corpo, quando se prostra aos pés de Nossa Senhora – novo trovador que a chama simplesmente de Senhora, ou Senhora minha − e lamenta não poder “erguer-se além de si” (poema Consagração).

A nulidade deste corpo será, no fim das contas, a busca de uma ascese. Em tempos de performance, quando os seguidores brasileiros de Paul Zumthor pretendem seja a literatura um mero “preconceito grafocêntrico”, O corpo nulo dança no ar, fazendo poesia amorosa, poesia do conhecimento da dor e lira metafísica de inspiração cristã com as lições da antilira. Aos que ainda acreditamos na “poesia eterna”, resta a urgência desta contemporaneidade: a certeza de que as flores mixas faltavam.

 

[1] “Tasso da Silveira e o tema da poesia eterna.” São Paulo: S. E. Panorama Ltda., 1940, p. 9

[2] Isso, não obstante o que diz L. M. C. no seu Posfácio: cremos que já faz o caminho oposto.

[3] “Da Poesia à Prosa.” Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

In: L.M.C. O Corpo Nulo. Mondrongo, 2015.

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