Poemas · Poesia

Poesia Recente (inéditos)

DIÁLOGO COM SANTA TERESA

Vivo sem viver em mim,
porém, oposta a Teresa,
vivo a este mundo presa,
temendo a morte e o porvir.

Vivo já fora de mim,
desde que morro de amor;
não diante do meu Senhor,
mas do sangue que verti
nuns corpos de barro e suor,
cuja existência — ai de mim! —
sucumbe à morte e ao porvir.

Esta mundana prisão
do amor que me tem cativa
faz com que meu corpo viva
escravo do coração.
A alma, débil, se esquiva
de tão intensa paixão —
se o próprio Deus confiou,
para em meu seio nutrir,
os filhos da Criação,
não quero a morte e o porvir!

Ah, como é longa esta vida!
Que duros estes desterros!
É uma aflição desmedida
amar, tentar protegê-los —
eles, de quem sou em vida,
pedaços vivos de mim,
a quem o tempo convida,
com seus passos de ceifeiro,
a ir deixando de existir.
Odeio a morte e o porvir!

Aquela vida mais alta,
que é a vida verdadeira
— eu sei, Deus Pai! –, quem me dera
querê-la mais do que a falta
que me fazem essas roseiras
em flor, que a existência mata.

Se as preciso dar a Deus,
ao mesmo Deus que entregou
seu Filho, salvando o meu,
sei bem que é porque depois
renasce o que se perdeu,
alcança um mais alto voo.
Mas não posso, sem mentir,
sorrir e dizer adeus.
Não quero a morte e o porvir!

*

NUM 13 DE OUTUBRO JÁ OBSCURO…

Há cem anos fazíeis o sol balouçar
num céu sem dono ou prumo, e os olhos que escolhestes
para vos contemplar nesse ardente mistério
descarnam sob a terra ardente, irrequietos,
sabendo que deixaram sobre a terra, inermes,
os frutos insatisfatórios desse olhar,
daquele mesmo olhar que vós ressuscitastes
quando lhe deste um sol milagroso a fitar.

Era preclaro, era evidente o vosso choro
a comandar o sol no céu, que se agitava;
dançava o sol, dançava diante destes olhos,
os mesmos que, ora descarnados sob a terra,
vêm já multiplicar-se em outros muitos olhos
com que eu e meus irmãos vos quase não choramos.

Há cem anos dançava o sol, e o vosso choro
lavava de esperança e presságio o que somos
(nós, filhos de todos os tempos). E o que somos,
cem anos após ter-vos adorado o sol,
é o arremedo tímido de uns vossos servos.

*

INSTINTO

Persegues o sol
que sobre o chão de madeira sintética
projeta manchas de calor
amarelo carvão —

o pó mais o teu suor
são lama em tuas mãos
e ao menor
sinal de que teu corpo leve e são
pode levar a pior
nessa caçada, meu “Não!”
ecoa ao redor.

Qual nada, qual “não”!
Teu riso é maior
ainda, e o passo ligeiro
— quatro apoios pelo chão —
vai logo dar no banheiro
onde um raio de sol
multiplica-se no espelho.

Menino ou felino
travesso? Haveria
a dúvida, talvez, não fosse a linha
claríssima que te atravessa as mãos
e te dá destino
para além da mínima,
metafórica sina
(jamais livre, se arisca)
de um (com todo o meu desprezo)…
gato.
*

MORRER, JÁ NÃO BASTASSE O TER VIVIDO

Morrer, já não bastasse o ter vivido
em meio às confusões e serpentinas;
tão repentinamente — um sopro, o silvo
da brisa sobre a brasa que crepita.

Morrer, com uma audácia sem motivo
algum de ser, pois ser já dilacera.
Interromper o curso imprevisível
do rio que dá no mar da longa espera.

A trovejar num céu cor de fuligem,
morrer conjuga-se alto, ergue-se esfinge
lançando no ar perguntas traiçoeiras.

Viver — permanecer entre os que atingem
a linha de chegada deste dia —
não faz pergunta alguma, só se esquiva.

*

AO MEU MARIDO, NOS NOSSOS 4 ANOS DE CASADOS

De tanto viver quieta
à margem de espúria vida,
eterna refém da espera
pelo que fosse alegria;

de tanto almejar tremores,
beijos sem fim, despedidas,
toda sorte de impostoras
emoções, vidas fingidas;

de tantas noites sem sono
e dias em convulsiva
procura pelo que o sonho
projetasse na retina

cansada, já intumescida
pelo hábito do choro;
de tanto, tanto abandono,
tantas lágrimas retidas;

de tanto furar meus olhos,
de contrair falsas dívidas
junto a cruéis usurpadores;
de tanto ouvir estertores

dentro de conchas marítimas
que me ofertavam seus ossos
no bojo de ondas salinas
e seu espumar insosso…

De tanto, enfim, pedir vida
aos pés de uns ouvidos moucos,
vi por fim servir-se, aos poucos,
de uma outra alegoria

minha sorte, seu agouro:
um tempo novo, tão outro,
que é como ter outro peito
para abrigar, em seu leito,

meu coração com seu choro.
Um novo tempo, tão brando
na face que vai mostrando
à indiferença dos outros –

um tempo mesmo esquisito,
pulsando, ardendo-se, aflito,
sem perder, porém, seu nome
de vista. Dias revoltos,

dias longos, pouca brisa
para aliviar no horizonte
a imprecisão da neblina
a impregnar-se nas frontes

de quem, por ora, os habita.
Dias cheios de uma fome
por espécie de iguaria
rara no mundo dos homens.

Dias claros, simples pranto,
sereno em sua dor humílima,
dor que dói só porque, entanto,
doer faz parte da lida.

Revejo, num fundo branco
(é quarta-feira de cinzas),
o dia em que, em desencanto,
deixei para sempre a vida

que é minha, sempre será
minha, esta alma dorida,
porém, já toda despida
do que a lograva ocultar,

desde que ousou desposar
outro ser de faces lívidas…
Não, o amor não alivia
coisa alguma. E descansar

é já pretensão sepulta
sob a certeza de estarmos
até o fim na labuta
juntos e não separados.

Coisa louca, essa permuta
de uma dor por outra, e essa outra,
sendo o oposto da amargura,
ser a mesma que se louva

no sal que a terra fecunda.
Amar-te, e as noites são longas.
Amar, sem sombra de dúvida.
A angústia de ontem soçobra.

*

EXPECTATIVA

Talvez seja demais dizer que a espera
é abrupta ruptura na passagem
das horas sem socorro;
que a pura expectativa é como aragem
a lufar nuns pulmões cor de fuligem
o ar redivivo da antecipação,
que por si só já apraz qual fruto novo.

Talvez seja demais, pois o suposto
sabor colhido a um pomo só previsto
mais sabe à carne crua
da caça esquiva à bala que a procura;
tem gosto de água turva,
provavelmente, esse fruto que excita
tanta imaginação, glutonaria.

Ou talvez não: talvez mera paisagem
diversa do presente e discernida
no fundo intermitente do que não
se sabe ao certo – é certo, dá passagem
através da torrente impenetrável
das horas sempre mortas, sempre antigas
que levamos por dentro.

 

Igreja da Sagrada Família – São Caetano do Sul
2 de junho de 2017

*

Meu amor não te acusa
desse sobressalto
cravado no centro
de noites em claro.

Meu corpo, que tu usas
como se fosse
um membro teu falto,
também não te acusa.

Teu choro manipula
os meus cordões mais instáveis.
Suplico o teu perdão
pelo estranho bem que me fazes.

Meu sonho não se escusa
de embalar-te,
fragmento de lua
pousado em meu regaço,

silhueta pequerrucha,
carne da minha carne…
Sou tua, sou tua,
nada nos reparte.

Dedicado ao meu filho João Vitor

*

I

Segura a minha mão, porque é revolta
essa água sem razão que nos transborda;
aziaga, vem de dentro, ou vem de fora,
clarão de tempestade ardendo à solta,
que, sem se demorar, já nos devora.

Quiséramos beber de uma água limpa
como a que embaça os vidros quando a aurora
permite à luz que dance e frutifique.
Mas a sede que temos nos afoga
e não nasce um só dia que nos limpe.

II

Deixar vir um querer todo diverso
deste, que ora cobiça, ora adereço,
nos fecha sem saída neste ciclo:
desejar febrilmente um só desejo,
plantado numa fome sem raízes
e em vão multiplicado, em vão crescendo,
porquanto improvisado, estéril e triste.

III

Servir como entender que o que persiste
quando a torrente em fúria nos afoga
é a gota de suor fresca, invisível,
e a lágrima sem dor que se evapora,
trazendo o amor à escura superfície.

Servir de olhos abertos, mas fechados,
com os lábios secos, mudos, porém ávidos,
servir com a concha mouca dos ouvidos
buscando discernir, entre alaridos,
qual forma há de servir que desagrave

a escravidão mundana aos vis sentidos.

IV

Servir, morrer, servir; ser lírio ou ave
nos campos em que a fome não fecunda
a planta traiçoeira dos cuidados –
a cada dia um mal, somente, e a busca
deve-se confiar aos bens mais altos,
aqueles de que a Graça não descuida.

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