Lorena Miranda Cutlak

Relato de parto: um parto, duas dores

Texto originalmente publicado no Facebook, em novembro de 2014.

 

Como tantas mulheres, sonhei durante toda a gravidez com um parto normal, mas acabei passando por uma cesariana. Só que no meu caso houve uma particularidade: passei por todo o trabalho de parto e entrei na faca quando meu bebê já estava quase escapulindo da barriga. A história é a seguinte:

A Maria estava sentada. Quem entende o básico do idioma “gravidês” sabe que isso quase sempre significa parto cesáreo, pois o parto de bebês pélvicos (isto é, sentados) é considerado de risco. Sempre tive esperança de que ela ainda virasse, mas à medida que as semanas avançavam a triste probabilidade da cesárea ficava mais concreta. Conversei com minha obstetra e concordamos que ao menos esperaríamos o início do meu trabalho de parto, ao invés de agendar maquinalmente uma cesárea. Espero que ao fim deste relato fique claro o motivo da minha insistência nesse ponto.

Pois bem: 9 de novembro de 2014, 38 semanas e 1 dia de gestação. Teoricamente, a Maria ainda podia levar duas ou mesmo três semanas para querer vir ao mundo. Eu já vinha tendo algumas contrações de treinamento e cólicas doloridas, mas nada que indicasse um parto iminente. Aquele era, portanto, um domingo como qualquer outro. Vitor e eu fomos à Missa pela manhã, depois almoçamos uma deliciosa (e apimentada!) feijoada na casa da minha sogra. À tarde, fomos visitar nossos compadres Rafael Falcón e Day Teixeira , e entre um café e outro eu esvaziei aproximadamente meio pote de sorvete de creme com amendoim e chocolate (santo remédio para a azia chata que dá no fim da gravidez – é sério). Entre as oito e as nove da noite, ainda na casa de nossos compadres, estávamos diante de uma mesa de pães, frios e um bolo esquisito que o Rafael comprou. (Gravidez dá muita fome, gente!) Perto das dez, estávamos em casa e às onze eu estava na maca do centro cirúrgico prestes a ganhar minha filha.

Mas peraí: cadê o trabalho de parto?

Por mais bizarro que pareça, eu passei todo aquele domingo em trabalho de parto. Na madrugada de sábado para domingo, acordei com muita cólica, mas não era nada que já não tivesse acontecido antes. Tomei um Buscopan e voltei a dormir. Quando acordei, percebi que as supostas contrações de treinamento estavam doloridas e ritmadas: vinham a cada dez minutos, como um reloginho. Mas foi durante a Missa que me dei conta de que algo realmente diferente estava acontecendo, e senti uma felicidade indescritível. Cada fisgada na lombar indicava que meu parto estava próximo e isso – não só o fato do parto, mas a sensação de meu corpo trabalhando ativamente para prepará-lo – era uma grande alegria. Eis aqui um primeiro motivo para se valorizar o trabalho de parto: a preparação psicológica (de base fisiológica, hormonal) da mulher. Hoje eu sei que não é à toa que dizem que a ocitocina (o hormônio que comanda o parto) é o hormônio do amor. Durante aquela Missa minha vontade era abraçar todas aquelas famílias e crianças. Eu estava sentindo cólicas doloridas, mal conseguia ficar de pé, e isso significava que meu parto estava próximo, minha filha existia e meu corpo era uma fábrica de vida – com o perdão da expressão cafona.

As contrações se mantiveram ao longo do almoço e durante toda a tarde. Doíam, sim, mas era perfeitamente possível suportá-las sem fazer um escândalo. No máximo, durante alguma conversa profunda e filosófica (só que não) com o casal Falcón, eu parava no meio de uma frase para pôr as mãos nas costas e fazer cara de dor. Com o cair da noite, foram ficando mais doloridas e a intervalos menores. Ainda assim, não era uma dor que lembrasse os gritos desesperados das mulheres que estão parindo, como costumamos concebê-las. Lembro da Day tentando acalmar o Vitor (dois olhos verdes arregalados cada vez que eu parava para pôr as mãos nas costas): “Calma, Vitor, quando for o parto pra valer ela vai berrar, não ficar aí conversando”. Eu também pensava o mesmo. Quando Vitor e eu fomos para casa, as contrações já estavam vindo de oito em oito minutos e às vezes de cinco em cinco. Eu li muito sobre gravidez nos últimos meses e sabia perfeitamente que contrações doloridas de cinco em cinco minutos querem dizer trabalho de parto. Ainda assim, continuava incrédula: onde já se viu grávida em trabalho de parto comendo sorvete de amendoim e batendo papo a tarde inteira? Aquilo tinha de ser um episódio de preparação, em algum momento as contrações parariam. Liguei para minha médica, apenas comunicar meu estado e perguntar se eu poderia tomar Buscopan para conseguir dormir. (Mais tarde, no hospital, ela me diria: “Sua filha quase para sair e você querendo tomar Buscopan!”). Eu não queria ir para o hospital à noite, e sobretudo não queria ir para o hospital antes da hora, mas não teve jeito: minha médica me intimou a ir imediatamente. Pensei com tristeza: “É isso, vou ser mais uma que se interna por um alarme falso e termina numa cesárea sem trabalho de parto.” Resignada, segurei na mão de meu marido branco feito um lenço e fomos.

Jamais vou esquecer aqueles vinte minutos no carro a caminho do hospital. Digo com toda certeza: foi um dos momentos mais felizes que tive até hoje, daqueles que têm de constar no filme que conta a história de nossas vidas. Se eu tinha alguma dúvida de que estava em trabalho de parto, durante aquele percurso não tive mais. As contrações passaram a vir FORTES, e pela primeira vez em todo o dia me deu vontade de gritar, e eu gritei, mas também ria, enquanto meu marido assustado dizia “Eu não acredito que você está gritando de dor e dando risada ao mesmo tempo”, e ria também. Tive seis contrações em vinte minutos, e nos pequenos intervalos em que elas paravam eu esperava ansiosa pela próxima. “Está acontecendo!” – E naquele momento eu me sentia preparada para tudo, para todo o esforço e a dor que ainda tivessem de vir para que minha filha nascesse. Lição número dois sobre o trabalho de parto: ele transforma a dor física em uma verdadeira “cruz sem cruz”. Não é lenda, não é mandinga, não é acaso: são hormônios, mesmo.

Cheguei ao hospital com 8 centímetros de dilatação. Para quem não fala “gravidês”, isso quer dizer que mais um pouco e os pezinhos da minha filha sairiam para fora. Minha médica me deu uma bronca, pois o bebê já estava muito baixo e talvez não fosse mais possível fazer a cesárea. Confesso que não considerei isso uma má notícia… Mas nos fim das contas foi possível, sim, e fui encaminhada ao centro cirúrgico para uma cesariana de emergência.

Aí termina a parte bonita e vigorosa do meu parto. Mas não vou me fazer de vítima e dizer que fui submetida a qualquer coisa. Não, eu topei fazer a cesárea, pois estava ciente de que o parto pélvico, para ser realizado com segurança, requer uma técnica específica e exaustivamente praticada. Se minha médica achava melhor não fazer, então devia ser melhor mesmo. Meu objetivo ao fazer esse relato não é denunciar qualquer “violência obstétrica” que eu tenha sofrido (apesar de que sofri, sim, mas da parte do hospital e não da obstetra, que é uma das pessoas mais generosas e humanas que já tive a sorte de conhecer). Meu objetivo é me dirigir às mulheres que compram o discurso de que “não faz mais sentido passar horas e horas sofrendo com dor, quando a medicina evoluiu e já dispomos de uma cirurgia rápida e prática como a cesariana.”

Bom, eu passei aproximadamente 14 horas em trabalho de parto, durante as quais estive com minha família e meus melhores amigos, comi feito um leão e compartilhei momentos de intensa intimidade e alegria com meu marido. Segundo minha própria médica, se o bebê estivesse encaixado, a fase expulsiva não teria levado mais de 15 minutos e alguns empurrões, provavelmente sem anestesia. É claro que doeu, sobretudo no final, e expulsar o bebê teria doído mais ainda, mas acreditem quando digo que não doeu nada! Pelo contrário, terei sempre um carinho imenso por aquelas 14 horas. Já o que veio depois, a partir do momento em que fui levada ao centro cirúrgico… Nem preciso entrar em detalhes. Basta dizer que quando minha bebê nasceu eu só a vi de longe e só pude segurá-la nos braços no dia seguinte, e isso porque fiz o esforço de ir me arrastando, recém-operada, até o berçário. Também não preciso descrever em detalhes como a anestesia fez cair minha pressão e fiquei passando mal ao longo de toda a cirurgia, semiconsciente, e depois fiquei por quase três horas (TRÊS HORAS!) sozinha numa sala de recuperação, tremendo pelo efeito da anestesia (“É normal, daqui a pouco passa”, diziam sem sequer olhar na minha cara as enfermeiras), sem saber por onde andavam minha filha, meu marido, minha mãe. O pior é que o efeito da anestesia foi passando mesmo, e com isso comecei a sentir a dor dos cortes, e nada de me levarem para o quarto ou me darem um analgésico. Precisei chorar e implorar às enfermeiras que notassem minha existência e me ajudassem. Das três a que implorei, apenas uma me ajudou, as outras continuaram limpando a sala.

Sei que minha experiência, tanto com o trabalho de parto quanto com a cesárea, pode ter sido um caso isolado, mas foi assim que aconteceu. E para mim a conclusão a partir de tudo isso é óbvia: nas cenas descritas acima, há dois tipos de dor: uma natural, produzida pelo próprio corpo com um objetivo determinado, a qual nosso organismo se prepara para receber, de modo que, quando ela vem, estamos física e mentalmente preparados para suportá-la; e outra artificial, vinda de fora sem qualquer aviso prévio, o que faz com que nosso corpo se defenda contra ela, produzindo, por exemplo, infecções e febres, e daí a montanha de remédios do pós-operatório, para tentar reequilibrar o organismo.

Vai fazer sete dias que passei pela cesariana e ainda não consigo andar direito. É difícil amamentar minha filha, pois preciso apoiá-la sobre a barriga cortada. Digo novamente: não quero demonizar de modo absoluto o parto cirúrgico, que evidentemente salva vidas e é, em seu devido lugar, um avanço, mas o discurso de que ele é prático e indolor é FALSO. Apenas isso. Comparar favoravelmente a dor do pós-operatório à do trabalho de parto é um grandessíssimo absurdo!

Dou graças a Deus por ter, quase que por acaso, levado meu trabalho de parto às últimas consequências, pois não tenho dúvidas de que isso foi fundamental para me preparar para receber meu bebê, além de ser a causa por trás do colostro vazando do meu peito logo após o parto, para surpresa das enfermeiras. Já que é preciso ver o lado bom de tudo, faço agora meu máximo para aprender também com a experiência da cesariana, mas espero do fundo do coração nunca mais precisar repeti-la.

No futuro, quando pensar no parto da Maria, a imagem que virá à minha memória será a daqueles vinte minutos no carro com o Vitor, a caminho de nossa nova vida em família, rindo e gritando de dor ao mesmo tempo, como em todas as situações que nos modificam para sempre.

Um passo adiante

Texto originalmente publicado no Facebook, em maio de 2017.

Existe um certo glamour em torno da gravidez. Com nossas incontáveis fragilidades, nosso paladar alterado, nossos hormônios loucos e, é claro, a presença opressiva de nosso ventre planetário, as grávidas acostumamo-nos a ser tratadas como seres especiais. (É claro que você também pode estar numa plataforma de metrô às seis da tarde e ninguém olhar para a sua cara, muito menos para a sua barriga, mas, via de regra, o tratamento especial existe, sim.) Por nove meses. Depois, o bebê nasce, o sapatinho de cristal fica na escadaria do castelo e a gata borralheira reaparece atrás de olheiras e cheiro de leite azedo. Não tem jeito.

Lembro do domingo em que a Maria nasceu. Lembro da vaga sensação de estar sentada numa praia que em breve seria atingida por um tsunami. Lembro de saber que seria um tsunami. E foi. E, como um país de terceiro mundo, até hoje não me reconstruí totalmente. Ainda existem marcas de lama e restos de sargaços por todos os cantos.

E um segundo tsunami a caminho. Ou talvez a imagem já não funcione tão bem. Tenho motivos para crer que nosso segundo filho não tem tanto a missão de destruir edificações obsoletas (do ponto de vista emocional, espiritual, moral…), como hoje sei que nossa filha Maria teve. Ele também não vem solucionar nem remendar nada; não foi o filho encomendado “para dessa vez dar certo” (quem quiser referir-se a ele assim não imagina o tamanho de seu equívoco). Não foi um filho “acidental” nem “planejado”, pois essas são categorias que não se aplicam quando você acredita – como nós acreditamos – que o sentido de uma família é crescer. É simplesmente o nosso segundo filho, nosso passo adiante.

Nunca voltarei a ser a pessoa de antes do tsunami. Quem desejaria sair ileso de uma experiência tão extrema? Quem desejaria anestesiar as próprias contrações? – Muita gente, eu sei, mas não eu. Espero ansiosamente pelas dores na lombar. Qual mundo se desvelará depois delas, com a chegada do novo serzinho de nome João, só Deus sabe. Eu, por ora, me contento com a certeza de que vai ser o melhor dos mundos possíveis, confiando na Providência que nunca me desamparou.

Vida longa, Miguel Arcanjo!

Texto originalmente publicado no Medium, em setembro de 2016.

 

Quando, em 2014, via Twitter, Richard Dawkins afirmou ser imoral não abortar um bebê com síndrome de Down, foi um escândalo. Mesmo pessoas sem relação direta com a síndrome expressaram seu asco diante da declaração, obrigando o escritor a explicar-se:

“Se a sua moralidade baseia-se, como a minha, no desejo de aumentar a felicidade geral e reduzir o sofrimento, a decisão deliberada de dar à luz um bebê com Down, quando existe a possibilidade de abortá-lo no início da gestação, pode ser considerada imoral do ponto de vista do bem-estar da própria criança.” (Fonte: https://www.theguardian.com/science/2014/aug/21/richard-dawkins-apologises-downs-syndrome-tweet)

Ou seja, pessoas com SD sofrem; é melhor poupá-las das vidas miseráveis que estão fadadas a ter nesse mundo.

O curioso é que, provavelmente, muitas das pessoas que se escandalizaram com a frase curta e grossa do autor no Twitter (“Aborte e tente de novo”) devem ter achado razoável sua explicação posterior. A premissa do raciocínio de Dawkins (“pessoas com SD sofrem muito”)está por trás de muitos comentários que ouvimos sobre a SD, alguns até bem intencionados.

Como eu posso dizer que minha filha com SD é feliz, e que eu sou feliz por ser mãe dela, se antes de completar seu primeiro ano de vida ela teve de passar por uma cirurgia cardíaca de alto risco? Se ela não come doces por ter tendência a desenvolver diabetes? Se ela tem de fazer exame de sangue a cada seis meses para controle da tireóide? Se ela teve de fazer fisioterapia para começar a andar?

Menos de dois anos, e uma vida já tão rodeada de senões e dificuldades.

No entanto, ontem, 29 de setembro, a Igreja Católica celebrou o dia dos Arcanjos, o que me fez perguntar por onde andará Miguel Arcanjo, um dos bebês minúsculos e gravíssimos que dividiram a UTI cardiológica com a Maria, durante o pós-operatório dela. Miguel Arcanjo, recém-nascido, havia feito a primeira das quatro cirurgias cardíacas de que precisava para reparar seu coração. Quatro. Sua mãe era pobre, morava longe e tinha outros filhos, por isso o visitava bem rapidinho todos os dias — mas sem falta o visitava. Miguel Arcanjo, que não tinha síndrome de Down e mal chegara ao mundo, já sofria mais do que muitos de nós ao longo de nossas vidas inteiras.

Curioso: cardiopatias congênitas são muito comuns em bebês com SD, mas naquele hospital, durante aquele período, a Maria era a única bebê com a síndrome. Todas as outras crianças tinham os cromossomos perfeitamente no lugar e coraçõezinhos que precisavam de reparos.

Conheci muitos casos. Nunca vou esquecer da menininha que nascera com apenas metade do coração, e que aos seis anos também se preparava para sua quarta — e última! — cirurgia. A mãe, orgulhosa por tantas vitórias passadas e pela derradeira vitória, iminente, me contou da saga para encontrar um médico que não desenganasse a criança. Desde o ventre, ambas lutaram. E agora menina estava ali, a um passo da plena saúde.

E, o mais dramático de todos, o caso da menininha na sala de espera da clínica de cardiologia pediátrica. Fizemos os exames pré-operatórios da Maria numa das melhores clínicas de São Paulo. Um dia, havia uma princesinha: cabelos dourados, olhos azuis. Perfeita. Estava com a babá, que contou para toda a rodinha de pessoas da sala de espera sobre como fora ela, a babá, quem primeiro notara os sintomas da cardiopatia da menina; fora ela, a babá, quem correra para o hospital com a criança roxa, e fora ela, a babá, quem dormira abraçada com a menina durante sua primeira internação. A menina, filha de dois médicos (POIS É), estava ali, em sua consulta pré-operatória, com a babá. E quem a via, com seus seis ou sete aninhos, sentada no colo da cuidadora, enquanto os dramas de sua vida eram narrados numa sala de espera — a própria cena atestava a veracidade de tudo o que a babá estava contando.

Eis um tipo de sofrimento que pré-natal nenhum é capaz de antever. Sem síndrome de Down. Com uma cardiopatia semelhante à da minha filha. Sem mãe.

Quem sofre mais?

É tentador perguntar isso, mas na verdade é uma pergunta absurda. Sofrimento e felicidade não são coisas quantificáveis. Não são coisas. Não se podem ver a olho nu. Não se podem aumentar ou diminuir mediante políticas eugenistas ou engenharias sociais.

Talvez a menininha da sala de espera encontre a felicidade a despeito das ausências de sua vida. Quem sou eu para saber?

Pessoas com Down são infelizes, é melhor nem nascerem. Pessoas com microcefalia são infelizes, é melhor nem nascerem. Pessoas nascidas de relacionamentos passageiros serão infelizes, é melhor nem nascerem. Não vou poder dar do bom e do melhor a esse filho que carrego no ventre, é melhor ele nem nascer.

Convenhamos: sofrimento “do filho”, uma ova; as pessoas têm medo é do seu próprio sofrimento, do pé no saco que é ser pai ou mãe daquela criança “doente”. Richard Dawkins não quer poupar a vida de pessoas potencialmente infelizes, quer, sim, livrar-se da inconveniência de cruzar com elas na rua. O melhor dos mundos seria aquele habitado exclusivamente por pessoas saudáveis, fortes, desejadas, planejadas, calculadas — um mundo que não existe, nem jamais existirá, pois significaria a anulação da vida.

Ou seja, a moralidade que tem por base o desejo de anulação do sofrimento, se levada às últimas consequências, torna-se assassina ou mesmo genocida, e seu propósito é inalcançável, pois 1) nenhum indivíduo ou grupo de indivíduos é capaz de determinar quais as fontes de “sofrimento” que, se eliminadas, levam à plena “felicidade”; essa é uma utopia de raiz antiquíssima, fruto de um reducionismo estúpido e antinatural; e 2) a vida é sempre mais. Vai ter doença, sim; vai ter dificuldade, sim; vai ter deformidade, sim; vai ter catástrofe natural, sim; vai ter linha torta pela qual Deus escrever certo, sim; e não interessa a sua opinião sobre o assunto, nem a minha, nem a do Dawkins: não é nossa a última palavra.

Quem fala por último é o Miguel Arcanjo, lá em meio aos tubos daquela UTI, e sua mãe que irradiava uma tranquilidade imprevista. Enquanto nascerem Migueis Arcanjos, não desaprenderemos a viver.

Exórdio

Há mais que chama na clareira
onde os outonos se consomem;
em todo fogo há primavera,
o fim que vem não é do fogo.

Há mais que chama ao seu encontro
quando entre cinzas degenera
uma carcaça que era um corpo;
algo que inflama e persevera

nesse convite um tanto aflito.
Meu Deus, se tudo é infinito,
deve perecer a matéria,

seus pontos de dor consumindo
como fogo pelas artérias?
Os caminhos do teu batismo.

 

 

In: L.M.C. O Corpo Nulo. Mondrongo, 2015.

Carta ao abortista de bom coração

Texto originalmente publicado no Medium, em dezembro de 2016.

Em 2014, uma americana, ao descobrir que estava grávida de um bebê com síndrome de Down, ouviu do médico as seguintes palavras: “Vocês não precisam ser heróis. Você pode ter o bebê aqui, ele ficará confortável conosco, mas vocês não são obrigados a fazer nenhuma intervenção drástica, como uma cirurgia cardíaca.”

Traduzindo: se não tinha coragem de interromper a gravidez, a mãe poderia ter o bebê e deixá-lo no hospital, sem fazer as intervenções necessárias à sua sobrevivência — até que ele “naturalmente” morresse. A mãe daria à luz a criança e a deixaria quietinha num canto para morrer. Isso mesmo: http://www.huffingtonpost.com/entry/dear-doctor-you-got-down-syndrome-wrong_us_5803e2bce4b0f42ad3d263b4?timestamp=1476650592422

Ainda em 2014, um casal australiano conseguiu na justiça o direito de abortar seu bebê de 28 semanas uterinas após este ter sido diagnosticado com uma deformação na mão. Guardo esta história na memória desde que a li, mas confesso que antes de citá-la neste texto fui pesquisar mais a fundo para ver se não havia algum detalhe fundamental que eu ignorava. Preparem-se para emoções fortes (http://www.brisbanetimes.com.au/nsw/i-felt-i-had-been-abandoned-inconsistency-and-fear-surrounds-lateterm-abortion-20141121-11r83k):

“Mother-to-be Cindy was 23 weeks pregnant when the first indication there might be a problem with the foetus emerged. What followed was a two-month long nightmare (…) They say they are still haunted by the silence that filled the ultrasound room, when, more than six months pregnant, the scan confirmed their fears: their child was suffering from a deformity, one that would cripple its left hand.”

Um longo pesadelo de dois meses… O assombroso silêncio da sala de ultrassom… A confirmação daquilo que os pais mais temiam: a criança sofria de uma deformidade que aleijaria sua mão esquerda.

(Pausa para o leitor enxugar as lágrimas.)

“Eu não queria que meu filho fosse discriminado”, disse a mãe. “É um problema evidente, pois afeta os dedos, e acho que a criança teria uma vida muito difícil.”

“Para ser sincero, foi muito desumano”, disse Frank (o pai). “Nos diziam que nossa única opção era dar à luz um bebê que não queríamos que nascesse. Sentimo-nos esquecidos e abandonados em razão das incertezas políticas e jurídicas das leis sobre o aborto.” [Grifos meus.]

Respire fundo, leitor, e deixemos os comentários para mais tarde. Agora estamos em 2016, ano em que Hillary Clinton, em plena campanha presidencial americana, declarou ser a favor do aborto até o nono mês de gestação. Vale notar que, em se tratando de um contexto eleitoral, ela não afirmaria um posicionamento que fosse extremamente polêmico — isto é, se não soubesse que a sociedade americana já está pronta para esse tipo de proposta.

Brasil, ainda o longo ano de 2016: o Supremo Tribunal Federal julga que não é crime abortar bebês de até três meses uterinos. Nenhuma multidão indignada toma as ruas; ao invés, uma horda de adolescentes tardios pergunta-se, via redes sociais, por que se indignam uns gatos pingados contra um parecer jurídico a favor das mulheres pobres, sem condições psicológicas ou materiais de ter um filho, que optam pelo aborto. Os abortos clandestinos acontecem; as mulheres morrem; é preciso garantir-lhes o direito de abortar em paz.

Brasil, ano de 2035. O senso comum já aceita perfeitamente a lógica de que “transei e engravidei, mas não queria = aborto”. Mais da metade das gravidezes são interrompidas logo no início, porém, como nada é perfeito, há também aquelas que se descobrem um pouco mais tarde e não são exatamente bem-vindas. E há também, é claro, as que eram desejadas de início, mas deixam de ser quando se descobre que o bebê em gestação não coincide com o bebê idealizado pelos pais. Só que a lei é obsoleta, de 20 anos atrás! Só permite o aborto até o terceiro mês. Absurdo. Todo mundo sabe que quem quer abortar com seis ou sete vai lá e aborta, mas as mulheres sofrem danos emocionais por ter de agir fora da lei — é uma violência contra a mulher! Aborto sempre, a qualquer hora!

Fim do discurso indireto livre, leitor, vamos falar claro: é de uma ingenuidade paquidérmica ignorar que o que vemos hoje, no Brasil, é a ponta de um iceberg que lá no “Primeiro Mundo” já está até bastante visível. Vocês caem como patinhos na conversa de que aborto é para os pobres e de que algum ideólogo abortista realmente se importa com a definição científica do início da vida. Não, cara classe média brasileira, bem intencionada e de bom coração, o aborto não é só nem principalmente para os pobres, é para todos e inclusive para você — você que nem desconfia do quanto já está enraizada no seu coração a semente do desprezo pela vida humana.

O que vemos em curso é um programa de dessensibilização dos mais violentos e infecciosos; a pessoa que hoje aceita a morte do feto de três meses não demorará a aceitar a morte do de seis e, com uma pitadinha a mais de retórica desumanizante, aceitará a morte do de nove, talvez com um nó na garganta, mas aceitará; pois “segundo a ciência, não são pessoas”. (“Argumentos científicos” são aquilo de que se valem os ideólogos quando querem que você se convença de algo sem ter de pensar a respeito.)

Eu sei, classe média brasileira, que a ideia de dar à luz um bebê e deixá-lo sozinho para morrer lhe causa asco; você seria capaz de levar para sua própria casa um bebê abandonado de modo tão cruel, tamanha a sua compaixão pelo outro. É justamente por isso que me desespera ver você dar a mão a gente que não vai descansar enquanto não macular essa sua bondade essencial. Se você de bom grado permite que suas mãos se sujem do sangue de fetos minúsculos, não se engane: acabará banhando-as no sangue de recém-nascidos, de pequenos bebês deficientes, de idosos já não tão lúcidos… A lista é potencialmente infinita! Essa é a cultura que você está abraçando. O lobby abortista NÃO VAI PARAR, não interessa o tempo de gestação ou quando é o tal do início da vida. (Spoiler: é na concepção.)

Entendeu? Você não é como essas pessoas. Mas está prestes a se tornar uma delas.

A Multidão

Texto originalmente publicamente no blog Ad Hominem, em outubro de 2012.

 

 

Estive em Belém do Pará na última semana, para acompanhar as festividades do Círio de Nazaré. Sendo paraense e tendo morado lá até meus dezessete anos, o Círio é uma das imagens mais fortes que trago na lembrança. Dois milhões de pessoas (mais do que a população da região metropolitana de Belém) em procissão por 3,7 km cumpridos em mais ou menos cinco horas, aglomeradas em torno de uma corda que puxa a berlinda contendo a imagem de Nossa Senhora de Nazaré – é uma coisa, antes de tudo, assustadora; é uma cena que, se falhar em causar alumbramento, causará profunda repulsa, mas dificilmente indiferença.

João Filho e nosso mais recente grande livro de poesia

Texto originalmente publicado no blog Ad Hominem, em junho de 2014.

 

Período de vacas gordas na poesia brasileira! Enquanto Emmanuel Santiago lança seu Pavão Bizarro em São Paulo, o poeta João Filho, em Salvador, dá à luz A Dimensão Necessária. Assino embaixo de cada palavra de Érico Nogueira sobre este último, e gostaria de acrescentar algumas outras:

Ao meu primeiro contato com a poesia de João Filho, tive a impressão de estar diante de uma locomotiva irrefreável de imagens – o que é o mesmo que dizer que João tem uma evidente imaginação de poeta; que lhe é natural (de)cifrar o mundo poeticamente.

Carta à Sra. Míchkina

Texto originalmente publicado no blog Ad Hominem, em julho de 2013.

 

O que vai abaixo não é exatamente uma mensagem que escrevi a alguém: em meu último post foi assim, mas dessa vez eu aproveitei a deixa de uma troca de mensagens para organizar em texto algumas ideias esparsas, já tendo em vista outros leitores além da interlocutora original, a distinta Sra. Míchkina. Mantenho o formato de carta porque ele facilita a exposição. E também porque o texto é orientado por questões levantadas pela Sra. M.

Os leitores me perdoem a insistência nos mesmos temas. Acontece que tudo isso – literatura, poesia, contemporaneidade – é, usando uma imagem brega, o papel de parede do meu mundo. São as coisas sobre as quais eu penso por necessidade pessoal. Todos têm direito a sua cota de ideias fixas. …

Jovens poetas e o cadáver inútil de Rilke

Texto publicado originalmente no blog Ad Hominem, em junho de 2013. 

 

O texto abaixo é minha resposta a um e-mail que me enviou José Renato Lima.

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José,

Acabo de me dar conta da existência deste gênero literário: resposta a carta deixada longamente por responder. Ele é facilmente identificável. Começa sempre com o devido pedido de desculpas pelo tempo em que o escriba deixou seu interlocutor “no vácuo”; em seguida, elencam-se os motivos para a deplorável demora e afirma-se ao interlocutor o quanto, o tempo todo, se endereçava a ele uma resposta imaginária; e, finalmente, discutem-se quaisquer que sejam os assuntos tratados na carta a que se responde. (Sim, Rilke, dirigindo-se ao jovem poeta, é por excelência o pai do gênero.) …

Para além da poética de Dostoiévski

Texto publicado originalmente no blog Ad Hominem, em agosto de 2013.

Esta é a versão Director’s Cut do último artigo que publiquei na revista Vila Nova. Minha intenção era acrescer o artigo de alguns parágrafos onde eu discutiria mais detidamente trechos do livro de Bakhtin sobre Dostoiévski, tentando sintetizar os motivos pelos quais uma considerável parte da crítica dostoievskiana (não no Brasil, é claro) rejeita a teoria de Bakhtin sobre polifonia e carnavalização na obra do romancista russo. Mas eis que encontro online um artigo fundamental de ninguém menos que René Wellek, onde estão resumidos magistralmente todos os pontos que eu arrancaria os cabelos para demonstrar de forma clara e sucinta. Recomendo fortemente a leitura.

O texto a seguir preocupa-se menos com Bakhtin do que com seus seguidores brasileiros.

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