A Multidão

Texto originalmente publicamente no blog Ad Hominem, em outubro de 2012.

 

 

Estive em Belém do Pará na última semana, para acompanhar as festividades do Círio de Nazaré. Sendo paraense e tendo morado lá até meus dezessete anos, o Círio é uma das imagens mais fortes que trago na lembrança. Dois milhões de pessoas (mais do que a população da região metropolitana de Belém) em procissão por 3,7 km cumpridos em mais ou menos cinco horas, aglomeradas em torno de uma corda que puxa a berlinda contendo a imagem de Nossa Senhora de Nazaré – é uma coisa, antes de tudo, assustadora; é uma cena que, se falhar em causar alumbramento, causará profunda repulsa, mas dificilmente indiferença.

O Círio ocorre há mais de duzentos anos (consta que o primeiro se deu em 1793) e é conhecido como o Natal dos paraenses. De fato, a quinzena que precede a festa lembra muito a atmosfera das festas de fim de ano, com uma crucial diferença: se o sentido religioso do Natal já quase passa batido, no caso do Círio a religiosidade é inescapável. É justamente sobre isso que eu gostaria de escrever: não tanto sobre o fervor religioso do povo paraense em época de Círio, mas, mais apropriadamente, sobre o modo como, nessa época do ano, os símbolos religiosos voltam a habitar o imaginário da população e são, por assim dizer, readmitidos entre o vocabulário e o senso comuns.

 

Na quinzena do Círio, Belém é tomada por palavras como louvor, bênção, graça, Maria, fé, devoção, santidade, paz. Isso em todos os âmbitos, dos comerciais de televisão aos cumprimentos entre conhecidos. É uma época em que portar um terço em público não chama a atenção, como é normal deparar-se com pessoas pagando as mais bizarras promessas. É como se na quinzena do Círio milagrosamente o cristianismo voltasse a ser o standard. Não se preocupe, leitor moderninho, não vou pular à conclusão de que isso se dá por milagre de Nossa Senhora, logo a fé move montanhas, etc. Não; é bastante óbvio que essa readmissão simbólica do cristianismo durante duas semanas mal fere a superfície das crenças e do comportamento geral da sociedade. Mas não deixa de ser um fenômeno bizarro, que há de guardar um significado mais profundo.

É sempre interessante, nessa época do ano, observar pelo Facebook as manifestações de meus conhecidos e familiares paraenses em relação ao Círio. E chega a ser inacreditável: parece que em vez de jovens baladeiros e/ou dispostos a integrar a revolução comunista mundial eu tenho dezenas de amigos fervorosamente cristãos! Dou-me inclusive a liberdade de reproduzir aqui o post, bastante bonito por sinal, de uma amiga cujas convicções políticas são o oposto das minhas (que, se não chegam a ser convicções por si, são no mínimo um pé bastante atrás quanto às ideias sustentadas pela minha amiga):

Feliz Círio a todos! Hoje é o meu dia preferido de Outubro, é o dia da trasladação… as pessoas em Belém vão para a rua à noite ver Nossa Senhora de Nazaré percorrer o caminho inverso da grande procissão que ocorrerá amanhã de manhã. Sempre fui louca pelas luzes das velas na Avenida Nazaré, o fresquinho da noite e os cânticos em coro dos filhos de Nazica… A corda, cobra grande materializada, nas mãos dos promesseiros… A fé, meu deus, a fé. A fé ali é concreta, é o povo, são as mãos para o céu. Que saudades do tempo em que eu deixava o meu coração ser levado procissão adentro sabendo que ao voltar para mim ele viria carregado de amor.

Quando li isso eu me perguntei sinceramente, sem qualquer ironia: fé em quê? Que tipo de fé é essa que abrange ao mesmo tempo a Mãe de Jesus e a Marcha das Vadias? Qual nexo lógico opera na mente da minha amiga, capaz de conciliar realidades tão distintas? E no entanto no Círio é assim: gregos, troianos, egípcios, astecas – todos caem de joelhos em louvor à Virgem Maria.

Todos os paraenses, isto é. Todos os que cresceram sabendo que, todo segundo domingo de outubro, milhares de romeiros vão dar suor e sangue numa procissão por amor de uma Santa. É isto que nenhum de nós paraenses consegue negar, o fato tão acachapante que, não podendo ser amenizado, transforma o ritmo de uma cidade por duas semanas e se aferra ao coração de seus habitantes: todo segundo domingo de outubro milhares de pessoas se expõem voluntariamente a cinco horas de castigos físicos, durante as quais sua única preocupação é chegar ao fim do percurso, cumprir a promessa, honrar a palavra empenhada diante da Santa. O que é impossível negar, quando já se viu isso de perto, é que há algo real aí. Nada é capaz de diminuir o peso do exemplo de cada romeiro do Círio: essas pessoas têm uma convicção, um ponto, um objetivo; nada as move senão o contato travado entre elas e a Mãe de Jesus. Ver o que elas são capazes de fazer consigo mesmas para honrar esse contato é algo a que nem o mais ateu dos paraenses consegue ficar indiferente. Há algo real aí.

Em 2004, quando eu tinha dezesseis anos, me inscrevi para ser da Cruz Vermelha do Círio. Longe de ser um ato de generosidade ou altruísmo, confesso que o que me movia era mais curiosidade de ver de perto o miolo daquela festa tão esquisita. Estando na flor da revolta adolescente contra a ordem e as coisas de Deus, queria ver o que estava por trás de tanto bla-bla-bla religioso por todos os cantos. O que menos fiz foi ajudar enquanto voluntária da Cruz Vermelha; na primeira oportunidade, perdi-me do meu grupo de maqueiros e fiquei solta, sozinha, no meio do Círio, embrenhando-me pela massa humana, colhendo cenas, expressões, impressões. E aquele calhou de ser o Círio mais longo da história, tendo durado mais de nove horas. A lama espessa, misto de suor, urina, terra e água, que me cobria às quatro da tarde daquele dia – aquilo era como ter a felicidade na pele. Perdoem-me, há certas coisas de que não dá para falar sem ser piegas.

Das muitas imagens colhidas ao longo daquele domingo, a mais forte foi a do promesseiro cuja promessa era acompanhar o Círio de joelhos. Essa é uma das promessas mais comuns (a mais incomum provavelmente é a do homem que, todos os anos, acompanha o Círio vestido em uma roupa feita com caranguejos vivos), e no entanto acompanhar aquele homem, colocar papelão diante dele, amenizando muito pouco sua tarefa, e principalmente o seu desespero quando alguém propôs carregá-lo nos metros finais do percurso – ele não queria, não queria! A promessa era chegar à Basílica de joelhos! –; ter diante dos olhos algo assim me deixou muito claro que aquela massa de gente era composta por indivíduos, e que cada um daqueles indivíduos estava ali porque tinha um pacto pessoal e intransferível com a Divindade.

Eu continuei adolescente e revoltada após essa experiência no Círio, mas certamente passei a respeitar aquela coisa assustadora que, sem eu entender como, movia aquela massa humana. Penso que seja esse respeito que toma os paraenses em época de Círio. Mas é um efeito passageiro, logo suplantado pela necessidade de fazer as compras do Natal, e nisso os comerciais de TV logo substituem as saudações a Maria por ofertas de queima de estoque. Parece haver aí aquela velha incapacidade de se chegar às últimas consequências de um raciocínio, de desenrolar até o fim uma premissa aceita. As pessoas reconhecem que por trás de algo como Círio só pode haver o sobrehumano – as pessoas chegam, sim, a reconhecer o mistério. Mas o raciocínio, ou, antes, a impressão, morre aí, como se aceitar a metafísica não devesse modificar todo o sistema de crenças de quem, fora das duas semanas do Círio, vive em função do aqui-e-agora.

Devo esclarecer que com “as pessoas” tenho em mente a classe média, as cem ou duzentas mil pessoas que ocupam os cinco bairros centrais da capital paraense e que veem o Círio pela televisão – no máximo, vão até uma travessa da avenida principal ver a Santa passar de longe, depois voltam para casa para o tradicional almoço com os pratos típicos da festa (e se as associo ao “normal” é porque cresci entre elas). Essa parte da população só é cristã no Círio, assim como mulher só assiste futebol na Copa. Mas quem vai na corda tem uma religiosidade bem mais perene; quem vai na corda do Círio em geral se prepara o ano todo para isso. E é como se a fé destes fosse tão forte que contagiasse os demais, ainda que temporariamente. Não encontro outra explicação para o Círio de Nazaré. Dois milhões de pessoas que acreditam em Nossa Senhora se dão em público a um sacrifício que os demais não podem ignorar, tamanha a magnitude da coisa. Quem pode se beneficiar disso de algum modo, como o comércio tanto formal quanto informal, não hesita em vestir a camisa da festa e falar a língua do povo devoto. Quem tem apenas por hábito festejar o que a maioria festeja, também vai junto e até reza umas Ave Marias. Mas a morosidade destes não afeta o núcleo do Círio, pelo contrário, o acolhe: que a fé dos romeiros ecoe de algum modo no resto da população espiritualmente inerte, movendo-a, criando nela a faísca fugidia da crença, devolve-se aos romeiros como um berço para sua fé.

Não tenho dúvida de que o saldo da experiência paraense com o Círio é este: conviver com os símbolos cristãos, ainda que sem compreendê-los em sua profundidade, prepara as pessoas para receber a fé quando esta se oferece. De minha parte posso afirmar que ter crescido com a imagem do Círio se repetindo ano após ano ao meu redor, se não me tornou verdadeiramente cristã, ao menos manteve em mim aberta a impressão de que há algo que nos transcende. Creio que essa é uma experiência compartilhada por todos os paraenses, e que isso em grande medida explica sua presteza em se prostrar diante da Virgem durante o curto período em que isso é socialmente aceitável.

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